"Tudo no mundo começou com um sim."
Clarice Lispector
Eu menti. Meus pensamentos não valem a fumaça do meu cigarro. Passei quase um mês com essa dor de cabeça, quase um mês pra justificar que eu não tenho mais espaço. E não tenho mais espaço aqui dentro sem doer e por isso o corpo dói quando não se tem espaço para doer. A alma dói de remorso. E depois de um tempo a gente dói e aprende a arte da auto anulação, a gente dói e recicla, na verdade, a gente sempre dói em silêncio. Porque às vezes a gente se sente parte de um negócio maior que essa angústia, e se sentir parte de um negócio maior parece a desculpa perfeita pra poder sair pelos fundos sem ninguém notar, porque ninguém nunca nota mesmo. Eu menti. Não tenho espaço e doo. Minha alegria frustrada é que os caminhos se separam e se encontram eventualmente. Não mudo de rumo porque ainda penso que sou imortal mesmo assim desbotado e misterioso e calado sempre. Mas mudei os vícios. Tudo o que eu tenho a dizer agora é muito breve e contido. Lembro-me de quando comecei a dar passos de gente grande e falava do amor que era eterno até sentir o amor que sufoca de tão nocivo. E o ciclo que se fecha. Quando o adeus chegar eu quero abraçar você pelo tempo necessário e não vou chorar e não chore também, porque, na verdade, eu nunca vou te dizer adeus.

