quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ele não sabe gritar

"Tudo no mundo começou com um sim."
Clarice Lispector

Eu menti. Meus pensamentos não valem a fumaça do meu cigarro. Passei quase um mês com essa dor de cabeça, quase um mês pra justificar que eu não tenho mais espaço. E não tenho mais espaço aqui dentro sem doer e por isso o corpo dói quando não se tem espaço para doer. A alma dói de remorso. E depois de um tempo a gente dói e aprende a arte da auto anulação, a gente dói e recicla, na verdade, a gente sempre dói em silêncio. Porque às vezes a gente se sente parte de um negócio maior que essa angústia, e se sentir parte de um negócio maior parece a desculpa perfeita pra poder sair pelos fundos sem ninguém notar, porque ninguém nunca nota mesmo. Eu menti. Não tenho espaço e doo. Minha alegria frustrada é que os caminhos se separam e se encontram eventualmente. Não mudo de rumo porque ainda penso que sou imortal mesmo assim desbotado e misterioso e calado sempre. Mas mudei os vícios. Tudo o que eu tenho a dizer agora é muito breve e contido. Lembro-me de quando comecei a dar passos de gente grande e falava do amor que era eterno até sentir o amor que sufoca de tão nocivo. E o ciclo que se fecha. Quando o adeus chegar eu quero abraçar você pelo tempo necessário e não vou chorar e não chore também, porque, na verdade, eu nunca vou te dizer adeus.

terça-feira, 13 de março de 2012

Avante


Ando pensando nos ciclos. Tenho uma vaga ideia do que isso significa na minha cabeça. Ando pensando nessas coisas que se repetem e eu como me sinto tão menino ainda tenho medo de abrir mão. Pensei em romper com o passado e pensei em me colocar em uma outra posição, pensei em escrever uma carta, pensei em escrever um livro, pensei em escrever um versinho bonito, passei noites tentando escrever um versinho bonito, não sei pra quem, pensei em purificar a alma. Mas antes de tudo, penso nos ciclos. Quando penso neles imagino um senhor de idade com uma expressão muito séria e recriminadora fazendo um gesto circular com o dedo indicador da mão direita. Esse senhor tem um rosto muito familiar, já sonhei com ele, já tive medo dele, hoje eu só evito. Acho que os ciclos são a forma de ele dizer para nós que passamos toda a vida redondamente enganados. Mas existem os ciclos e existem as decisões e as permições. Existe também o "daqui pra frente". Existe também o futuro. Existe o adeus. Alías, no final das contas, só existe o adeus.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Os amantes

Era uma avenida que parecia infinita. Alguns minutos mais e eu estaria perto de onde eu queria, e era claro como eu queria. Eu era um oceano inteiro transbordando, um grande letreiro em luz fluorescente que gritava. O problema era agora não perder o foco e o caminho até lá, esses passos quase querendo deslizar na calçada pra encurtar distâncias. Andava e ensaiava meu texto, as palavras iriam sugerir meus segredos sem conta-los assim de uma vez, achei melhor, mas talvez não fosse, na hora eu resolvo. Era então só uma esquina que nos separava. Era uma esquina e uma guarita, e alguns degraus. Antes disso eu parei, tomei fôlego, fechei os olhos. Era o perdão sendo aceito com facilidade. Era uma lembrança boa e um sorriso bobo. Era um pedido de desculpas escrito num guardanapo em cima da minha cama. Eram suas palavras contando seus sentimentos. E depois alguém me contanto sobre você, alguém muito preocupado com você, alguém que me disse que você queria saber de mim e sobre meu coração. Os passos estavam voltando, fortes e seguros. Era a vontade de dizer “eu te amo”. Virei a esquina e senti um frio. Era o medo de entrar pela porta e encontrar a sala vazia. Mas eu não iria me decepcionar. Era certo que a distância estava curta como dois dedos vizinhos grudados. Eram os nossos votos sendo renovados, como quando você disse que nunca conheceriamos o amor se não tivessimos um ao outro, e você me tem, e eu disse rindo que estavamos costurados juntos, e separados não faziamos o menor sentido. Tinhamos um amor clichê, infitino, e que funcionava. Eu ja tinha perdoado você desde sempre. Antes de chegar olhei para o céu, a noite dizia um enorme sim para nós dois.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Entre dois polos distantes


- O que você sente?

- Eu sinto... Um enorme vazio.

- Por quê?

- Não sei.

- Tem alguma coisa que eu possa fazer?

- Não sei.

- ...

- Às vezes eu me sinto triste, às vezes eu acho que não vou suportar todo esse peso nos ombros, às vezes eu penso em desistir, às vezes eu quase desisto, às vezes eu tomo fôlego e consigo sorrir, às vezes uma música alegre me faz feliz, às vezes eu me sinto cansado de tentar, às vezes eu sinto saudades de alguém, às vezes eu me lembro de cuidar de mim, às vezes eu tenho vontade de me mutilar de algum jeito, às vezes eu acho que não mereço tudo tão ruim, às vezes eu acho que mereço porque eu fui cruel, às vezes eu sinto vontade de gritar, às vezes eu tenho vontade de gritar e fugir, às vezes eu queria ver o mar de perto, às vezes eu queria me afogar no mar, às vezes eu fecho os olhos e imagino outro eu, às vezes eu vivo imaginando outro eu, às vezes eu me sinto infeliz, impotente, imperfeito, incapaz, incompleto, às vezes eu não sinto nada, às vezes tudo o que eu sinto é desespero, às vezes tudo o que eu vivo é desespero, às vezes eu me sinto perdido, às vezes eu me tranco no quarto por diversão, às vezes eu choro tanto quanto um desequilibrado, às vezes eu não sou tão forte assim sem ninguém por perto, às vezes eu enlouqueço, às vezes eu observo as pessoas de longe e desejo o que elas possuem, às vezes eu me acho feio, às vezes acho que disfarço a tristeza com arte, às vezes me convenço que disfarço bem, às vezes me pergunto por que as pessoas querem tanto saber sobre meu coração, às vezes eu só tenho amor, às vezes eu não tenho palavras, às vezes eu falo demais e me arrependo, às vezes não sinto prazer algum, às vezes eu coleciono frustrações, às vezes eu não dou importância pra elas, às vezes eu não cuido de mim porque eu não lembrei. E às vezes, se eu fechar bem os olhos, eu me sinto bem.

- E você ainda assim diz que está bem?

- Eu estou. Vai passar.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Miniatura

Não sou bom com versinhos bonitos
Porque eles demandam atenção
E sentimentos.
Os meus foram treinados para obedecer somente as suas ordens,
Por isso esperam eternamente.